• 12 JUN 14
    • 0

    Hormônio engorda?

    A questão do peso corporal tem uma grande importância quando a aceitação e comprimento da TRH. De fato, a TRH esta sendo comumente entendida como determinante de aumento de peso. Esta é uma preocupação que representa um grande obstáculo para a aceitação e difusão em longo prazo da TRH, a qual não somente pode aliviar sintomas subjetivos desta fase da vida da mulher, mas também pode prevenir contra o aparecimento de doenças futuras como a osteoporose. Estudos recentes têm demonstrado um efeito reverso ao que se acredita atualmente: TRH mostrou-se estar relacionada com diminuição da circunferência do quadril (CQ) e circunferência da cintura (CC), bem como um reduzido índice de massa corporal (IMC), quando comparadas às pacientes que não receberam doses de hormônios na pós-menopausa.

    Apesar do risco de câncer de mama ser a principal preocupação das mulheres, sabe-se que a maior incidência de morte em mulheres com mais de 50 anos no Brasil se refere às doenças cardiovasculares, num índice de 53% quando comparado aos 4% do câncer de mama (SOBRAC, 2008).
    Alguns consensos têm sido desenvolvidos por sociedades internacionais buscando oferecer diretrizes a respeito da relação da TRH com o risco cardiovascular. Estudos atuais sugerem que os achados díspares podem estar relacionados ao momento da intervenção terapêutica em relação à menopausa. Dentre as recomendações do IMS (“International Menopause Society”), usuárias que iniciam a TRH tardiamente podem ter um leve e transiente aumento do risco de eventos coronarianos, considerando ainda que exista relação direta do risco coronariano e a idade da paciente e que a TRH pode aumentar este risco em usuários acima dos sessenta anos de idade (SOBRAC, 2008).

    Diversos estudos demonstram o impacto da Terapia de Reposição Hormonal (TRH) nos níveis de leptina, peso corpóreo e composição de gordura corporal em mulheres climatéricas, mostrando resultados positivos frente à utilização desta alternativa.

    A leptina é um hormônio secretado perifericamente envolvido na regulação do comportamento alimentar e o gasto de energia. A massa total de tecido adiposo do organismo é o fator que mais está associado às concentrações de leptina no sangue. Medidas indiretas de gordura corpórea como o IMC (índice de massa corpórea) também estão fortemente relacionadas com a leptina circulante(Negrão AB, Licinio J, 2000).

    Uma das funções mais claras da leptina é ser uma referência para o sistema nervoso central (SNC) regulando a massa de tecido adiposo. Sabe-se ainda que oscilações do peso corporal acarretam mudanças nas concentrações plasmáticas de leptina (Negrão AB, Licinio J, 2000). Para cada nível de IMC, existe uma grande variabilidade de níveis de leptina, sugerindo que fatores genéticos, hormonais ou ambientais podem modular as concentrações de leptina no plasma (Kristensen K, et al, 1999).

    Kristensen K, et al, 1999, acompanharam 267 mulheres pós-menopausa durante 5 anos e observaram que a TRH atenuou em 60% o aumento de massa gorda, principalmente na região abdominal destas mulheres. Neste estudo, o efeito da TRH foi mais pronunciado nas mulheres não obesas, em comparação com as obesas.

    O aumento do peso corporal, particularmente a distribuição de gordura na região abdominal, é reconhecido como um preditor independente de doença cardiovascular. Esteróides sexuais circulantes podem influenciar a distribuição de gordura corporal e uma tendência para um aumento progressivo do peso corporal é muitas vezes observado durante o climatério. Isto parece estar associado com alterações endócrinas relacionadas à menopausa, a deficiência de estrógeno, ao processo de envelhecimento ou a este conjunto de fatores (Kristensen K, et al, 1999).

    O recente estudo de Gambacciani M et al, 2008, fornece evidencias de que a TRH pode moderar o aumento do peso corporal e prevenir a distribuição de gordura corporal central (andróide) observada em mulheres pós-menopausa precoce. Estes autores observaram que mulheres pós-menopausa tendem ao aumento do peso corporal paralelo ao aumento da gordura corporal e mudança na distribuição de gordura corporal. No presente estudo, ao final de 12 meses, foi observado no grupo controle, um aumento significativo no peso, acompanhado de um aumento significativo da gordura corporal total especialmente na região do abdômen e braços. Inversamente, no grupo com TRH a massa mineral óssea mostrou um aumento significativo após 12 meses, sem aumento considerado significativo no peso corporal e sem modificações na gordura localizada na região do abdômen e braços, porem com um aumento significativo na gordura localizada na região das pernas.

    Burguer et al, 1995 em um amplo estudo transversal, observaram uma tendência para o aumento do IMC durante o período de transição menopáusica. No mesmo ano, Dellangeville et al, mostraram que mulheres pós-menopausas tratadas com TRH combinada, apresentavam IMC mais baixos do que aquelas não-tratadas. Mais recentemente Matthews et al, 2001, estudando a influencia da menopausa e o uso de hormônios no Índice de Massa Corporal (IMC), em uma amostra multi-étnica de meia idade encontraram associação entre o uso de hormônios e o IMC mais baixo. Estes autores concluem que a transição da menopausa afeta o IMC, porem este fator é menos significativo comparado com outras influencias, entre elas a inatividade física. Intervenções para aumentar a atividade física são amplamente recomendadas para prevenir o aumento no tecido adiposo comum na meia idade.

    A Associação Brasileira do Climatério, em sua I diretriz sobre a prevenção de doenças cardiovasculares em mulheres climatéricas e a influencia da TRH salienta que quanto maior o controle dos hábitos de vida com redução do número de fatores de risco modificáveis associados, maior é a redução do risco cardiovascular e conseqüentemente das medidas corporais, fortemente relacionadas ao estilo de vida. O Nurses’ Health Study mostrou redução de 80% dos eventos coronarianos em mulheres que modificaram seu estilo de vida.
    Além disso, no climatério, há aumento de peso relacionado à redução do metabolismo basal, à redução da atividade física regular e ao aumento na ingestão de alimentos calóricos e à depressão. E a redução de 5 a 10% do peso corporal já estão associados à redução do risco cardiovascular, por afetar favoravelmente os níveis de colesterol, pressão arterial e glicemia (SOBRAC, 2008).

    Em 2006, pesquisadores do departamento de ginecologia e obstetrícia da faculdade de medicina da Turquia, avaliaram o efeito da tibolona na gordura abdominal subcutânea, nos níveis séricos de leptina e outros índices antropométricos, incluindo CC e CQ em mulheres pós menopausa. Um total de 40 mulheres com idades entre 42 e 67 anos foram tratadas durante 6 meses com a medicação ativa x placebo. No final do estudo, a tibolona demonstrou redução na CC, CQ, e gordura abdominal. O uso da medicação também pareceu atenuar o ganho de peso e os níveis plasmáticos de leptina (Odabasi, et al, 2006).

    A TRH inclui uma extensa gama de produtos hormonais, com diferentes doses, empregadas em diversos regimes e vias de administração, com riscos e benefícios potencialmente diferentes que devem ser de conhecimento médico em geral (SOBRAC, 2008).

    Em 2007, o mesmo grupo de pesquisadores da Turquia, estudaram o efeito de três diferentes tipos, regimes e formas de administração de hormônios no climatério (E2/NETA transdérmico, E2/MPA, E2/NETA oral), relacionando com os mesmos índices antropométricos do estudo anterior e o aumento do risco cardiovascular relacionado a estas medidas (considerando risco aumentado CC < 88cm e risco muito alto CC >= 88cm). Ao final de 6 meses, os três tipos de TRH utilizados causaram redução significativa na CC e gordura subcutânea, enquanto a relação cintura/quadril (R C/Q), peso e IMC também apresentaram mudança, porém não significativa. Os autores concluem que de fato a TRH diminui o tecido gorduroso abdominal, entretanto, este efeito é mais forte em mulheres com CC > 88cm e gordura abdominal subcutânea > 33mm (Odabasi, et al, 2007).

    A TRH não se constitui uma medida isolada e única. Deve fazer parte de uma estratégia global, incluindo além de estilo de vida, também dieta, exercícios, cessação do tabagismo e o consumo de álcool com o objetivo de manter a saúde da mulher na pós menopausa. A TRH deve ser individualizada e ajustada de acordo com os sintomas, as necessidades de prevenção, assim como de acordo com história pessoal, familiar, as preferências da mulher e suas expectativas de vida.

    Mireile Schüller Alaniz
    Nutricionista Clínica
    CRN2 7552

    Deixe um comentário →